A Música e a Congregação
Haroldo A. Miller
Tem-se dito que o "cantar é ato de adoração como o é a oração." Naturalmente é possível fazer-se interpretação errônea desta simples declaração. O adorar constitui ato individual. Não é alguma coisa que outrem faça por você, e que você a aceite à distância. É uma experiência pessoal e não um reconhecimento da devoção alheia: Por conseguinte se o cantar deve ser um "ato de adoração", necessariamente requer participação. Não há uma tendência para substituir os números do coral pelo canto congregacional? Em certos lugares é costume proporcionar "música especial" no lugar do segundo hino e do último. A congregação toma parte possivelmente no hino de abertura. Alguns oram por ela, um grupo canta para ela, e o pastor fala a ela. Quando é inevitável que as atividades provenham, em sua maioria, do púlpito e da galeria do coro, não seria razoável deixar todos os três hinos à congregação, sendo a escolha feita na base do assunto do sermão da manhã?
Lemos nos testemunhos:
"O canto não deve ser executado apenas por uns poucos. Todos os presentes devem ser animados a unirem-se no serviço do canto. Há os que tem o dom especial do canto, e há ocasiões em que uma mensagem especial é comunicada apenas por um cântico ou por vários unidos no cantar. A capacidade de cantar é um dom de grande influência, que Deus deseja que todos cultivem e empreguem para a glória de Seu nome." - Ellen G. White - Testemonies For The Church, Vol. 8, p. 115 e 116.
Oh, como há cantores que gostam de cantar hinos pesados de grande dificuldade técnica! [Ou: Oh, quantos cantores gostam de cantar melodias fáceis, que destacam sua capacidade vocal][1]. Isto parece indicar que o cântico não sobe mais próximo do céu do que do telhado da igreja. Você não pode cantar como ato de adoração salientando o eu na execução, da mesma forma que você não pode orar com uma oração previamente preparada para bom efeito retórico. Você talvez pense em quão bela oração pode fazer. Em igual medida, tanto na música como na oração, quem busca admiração ou louvor para o que faz, rouba-lhe a verdadeira devoção ou culto. Deus olha para o coração antes de ouvir a voz da criatura. Não vê o elegante, mas vê o sincero!
O hino congregacional afina o coração para receber a palavra, e se o pastor cantar suficientemente suave para ouvir a poderosa onda sonora que vem daqueles que devem ser ajudados, receberá fresca inspiração para um culto eficaz. Este ato de cantar todos juntos constitui poderoso agente em fundir a congregação num só coração como uma só voz.
"Embora agradável ao ouvido quando bem executada e eficaz quando as condições são favoráveis, para agitar as emoções do momento, as partes musicais elaboradas parecem ser, de fato, pobres quando comparadas com o canto simples e sincero que apelam para a natureza espiritual do homem, e no qual ele possa tomar parte.
"A música coral ensaiada pode ser coisa agradável em si mesma, mas introduzindo-se de modo forçado onde não caiba, pode tornar-se (longe de ser um auxilio devocional) um obstáculo, e induzir o homem a esquecer-se do verdadeiro objetivo do culto. Que o canto coral agrada os ouvidos das pessoas é muito certo; mas não se deve inferir que o ouvi-la torna as pessoas mais devotas. Mais agradam do que edificam.
"O silêncio não é louvor, e o ouvir o cântico e pensar quão belo ele é, não constitui oração" - Chapters on Church, R. B. Daniel.
Evitemos qualquer tendência de reduzir a participação ativa da congregação no culto, e guardemo-nos de privá-la dos preciosos benefícios que possam fruir do cantar hinos.
Nota:
[1] Os trechos localizados entre [colchetes] são adições dos editores do Música Sacra e Adoração, não constando do artigo original.
Fonte: Revista O Ministério Adventista, julho-agosto 1962. Pág. 9.