Mozart - Requiem em ré menor, KV 626
Análise e Comentários
O Requiem é sem dúvida, de todas as obras de Mozart, aquela que mais chegou até nós envolta num manto de romantismo e fantasia. "Nenhuma outra obra de Mozart causou tamanho derrame de tinta", escreveu Alfred Einstein, um dos mais respeitados biógrafos do compositor austríaco. O que é certo, é que muita dessa fantasia se veio a revelar verdadeira.
Um misterioso mensageiro veio realmente encomendar uma missa fúnebre a Mozart. Esta pessoa, de quem não sabemos a identidade, entregou uma carta a Mozart, pouco antes de uma visita sua a Praga para a estreia da ópera "La Clemenza di Tito", aquando da Coroação do Imperador Leopold II, perguntando–lhe se estaria disposto a compor um Requiem, por que preço, e quanto tempo iria demorar ele a executar o trabalho, denotando uma certa urgência no pedido.
Habituado a não dar um passo sem o consentimento da sua esposa Constanze, falou–lhe acerca da estranha comissão, ao mesmo tempo que partilhava com ela a sua vontade de se embrenhar neste tipo de obra. Ela aconselhou–o a aceitar a comissão e ele escreveu então ao misterioso mensageiro a dizer–lhe que aceitava o trabalho e por que contrapartida monetária. Preocupou–se também em saber a identidade do destinatário a quem deveria entregar a sua obra.
O mensageiro voltou pouco depois, trazendo não só os honorários combinados, mas também a promessa de que iria ser bem recompensado no final. Não deveria no entanto preocupar–se em saber a identidade do patrono, pois essa busca poderia tornar–se infrutífera… (sabe–se hoje que o Requiem foi encomendado pelo Conde Walsegg–Stuppach, em memória da sua esposa, e que este tinha o hábito de encomendar obras a vários compositores, copiando–as depois para as apresentar ele próprio no seu meio. Quando a condessa faleceu a 14 de Fevereiro de 1791, encomendou um monumento e uma missa fúnebre e o seu advogado vienense, Dr. Johann Sortschan, foi presumivelmente o estranho que apareceu a Mozart com a comissão).
No seu regresso de Praga, começou a trabalhar na obra com alguma regularidade até que a doença o abraçou, envolvendo–o em escuridão e melancolia. A sua esposa notou esta tristeza. Um dia, quando passeavam os dois pelo Prater no intuito de o divertir e animar, Mozart começou a falar em morte e afirmou que estava a escrever o Requiem para si próprio.
A natureza misteriosa desta obra é devida em parte, ao facto de que não existem muitas referências autênticas pela parte de Mozart acerca do Requiem. Não figura no Catálogo das suas Obras…, visto que ele apenas as inscrevia na sua lista depois de acabadas. A primeira página do manuscrito é encabeçada, reverentemente, pelas palavras "di me W.A.Mozart m[anu] pr[opria]. [1]792" – um ano que Mozart não viveu para ver; sabe–se agora que estas palavras foram forjadas pelo seu aluno Süssmayr. A única carta em que Mozart fala da sua última criação data de Setembro de 1791, mas é tida também como um embuste. Foi supostamente escrita em Viena para Da Ponte e a (agora perdida) carta contem a seguinte passagem: "Eu não consigo tirar da minha cabeça a imagem desse estranho. Vejo–o constantemente a perguntar–me, solicitando–me e implorando–me impacientemente que complete a tarefa… é o meu Requiem ['canto funebre'], não o posso deixar inacabado."
Pois inacabado foi precisamente como Mozart o deixou. Constanze virou–se primeiro para Joseph Eybler, um compositor admirado por Mozart, para que completasse o trabalho. Ele assinou um contrato com a esposa de Mozart a 21 de Dezembro de 1791, mas abdicou pouco depois, tendo orquestrado grande parte da "Sequenz" directamente na pauta original. Constanze virou–se depois para outros compositores, mas todos recusaram. Surgiu então Franz Xaver Süssmayr, um aluno de Mozart, mais novo dez anos que o seu mestre, que fez parte do circulo da família durante o último ano de vida do compositor, não só como aluno, mas também como amigo, confrade e alvo das piadas de Mozart.
Süssmayr era um homem ocupado em 1792, tinha a seu cargo encomendas para a época teatral de Viena. À parte do Requiem, ele ainda completou o chamado primeiro concerto para trompa de Mozart, K.386b (412 + 514) e teve lições de composição de que tanto precisava com Salieri. A relutância de Constanze em entregar–lhe o trabalho teve a sua justificação não apenas nas imperfeições que estragaram o texto de família, mas também na sua modesta desculpa quase uma década depois (8 de Fevereiro de 1800), quando respondeu a Breitkopf & Härtel acerca da sua contribuição para o Requiem de Mozart: "o meu trabalho não é digno deste grande homem."
Apesar das inúmeras críticas à orquestração de Süssmayr, feitas quer por musicólogos, quer por maestros de renome como Richard Strauss e Bruno Walter, esta continua a ser a versão comummente aceite e tocada em todo o mundo. Mas não é de estranhar que alguns músicos dos nossos dias tenham a intenção de apresentar uma versão que possa ser mais próxima das verdadeiras intenções de Mozart: Benjamin Britten e, mais recentemente, Richard Maunder na Inglaterra ou Franz Beyer na Alemanha, para indicar apenas alguns dos exemplos mais proeminentes.
As Edições do Requiem de Mozart
Quem escreveu o Requiem de Mozart
Os musicólogos não estão em total acordo sobre quem escreveu quais secções, deixando de parte os detalhes relacionados com a orquestração, do manuscrito original do Requiem, mas a base dessa discussão é provavelmente a que se segue:
* Do 'Dies irae' às 'Hostias', as partes vocais, a linha do baixo e, intermitentemente, a parte mais importante da instrumentação, foi composta por Mozart (deixou inúmeros esboços contendo essa informação, incluindo um Amen em estilo fugado para ser incluído no final do 'Lacrimosa' e que Süssmayr terá ignorado (ou desconhecido a sua existência...), seguindo assim a sua prática normal de composição). Depois da sua morte, a instrumentação foi completada por Süssmayr numa outra cópia (as adições de Eybler de toda a Sequenz até aos primeiros 10 compassos da Lacrimosa foram feitas no manuscrito original de Mozart, e foi essa a pauta em que se baseou Süssmayr). As opiniões segundo as quais Süssmayr terá ou não composto sozinho todas as secções em falta dividem–se. Não se sabe se Mozart não lhe terá murmurado no seu leito de morte partes do Sanctus, Benedictus e Agnus Dei ou mesmo deixado esboços sobre as três últimas secções da obra. Hoje em dia, há uma grande dúvida se Süssmayr teria sido capaz ou não de as compor, sem qualquer ajuda de outros compositores, num período tão precoce da sua carreira, conseguindo atingir uma consistência tão elevada.
Gravações seleccionadas
Fonte: Este artigo foi publicado originalmente em http://www.terravista.pt/PortoSanto/1090/musica/mozart/requiem.html, mas este endereço não está funcionando