Bandas e Fanfarras: Análise Técnica Dos Problemas Constantes
Beto Barros
Publicado na Revista Weril n.º 141
Esta matéria técnica aborda os problemas costumeiros que tenho observado no acompanha mento do Campeonato de Bandas e Fanfarras da Secretaria da Juventude do Estado de São Paulo, no qual venho atuando como jurado há algum tempo. Os assuntos que devo abordar nesta e edição é Fraseado e Articulações, mas outros tópicos serão publicados nos próximos meses.
O fraseado deve possuir precisão rítmica, definição exata das articulações, silabação adequada (pronúncia) e definição do estilo, imprescindíveis quando executadas em naipe.
Nosso sistema ocidental de notação rítmica não é adequadamente equipado para tratar com a complexidade de ritmos de jazz derivados da África e ainda das influências latinas da música popular de várias etnias, que agora se fundem e desembocam em um formidável caldeirão multicultural do século XXI. Por exemplo, as colcheias com swing, freqüentemente escritas como colcheias regulares
. Alguns escritores preferem indicar da seguinte maneira
. Ambas as notações são inadequadas. A colcheia swingada, quando propriamente executada, representa
, enfatizando pulsação ternária. Portanto, no estilo clássico, a colcheia deve mesmo ser regular
, no entanto, no jazz e em outros ritmos latinos, a colcheia regular deve ser executada
.
Aconselho maestros e chefes de naipe a anotarem todas as articulações necessárias e apropriadas nas partituras, para a perfeita definição do estilo a ser executado.
O problema básico nas bandas e fanfarras é o método de ataque, ou seja, a precisão de tocar staccato e a habilidade de executar um belo legato; tocar as notas suavemente sustentadas, conectadas e com a pronúncia apropriada.
Vamos agora dar uma olhada em vários exemplos de articulações que também estão disponibilizados em áudio, formato MP3 no meu site na web.
Exemplo 1
![]()
As marcações em legato (exemplo1) freqüentemente não são usadas no senso tradicional, mas para definir o comprimento da frase. Este tipo de frase no estilo swing deverá ser atacado (língua) levemente, e ainda com uma silabação macia, (soft) como "DU". Os acentos serão melhores realizados mais com a pressão da coluna de ar do que com ataque pesado da língua, e ainda por ser uma frase de caráter ascendente, deverá ter um natural e suave crescendo.
Tem existido alguma confusão entre os maestros com relação ao tamanho e interpretação das anotações de acento. O acento longo, que recebe o valor integral da nota, deve ser marcado como
, e o pequeno e pesado acento deve ser anotado como
. O acento marcato [^] deve indicar: mais pesado e mais longo do que uma colcheia, ou do que uma semínima staccato.
Apenas recentemente os arranjadores começaram a aceitar esta notação como padrão, e por esta razão as grades (os scores) devem ser estudadas com atenção e mudadas quando necessárias. Veja o próximo exemplo, ele é considerado correto em ambas as maneiras.
![]()
No estilo "swing" (popular não clássico), todo final de frase normalmente deve ser cortado, a não ser que exista outra indicação.
As colcheias mais altas no pentagrama devem ser normalmente acentuadas como no exemplo acima. Os acentos não devem ser exagerados. Um acento com pressão da coluna de ar é mais efetivo do que um acento pesado de golpe de língua. Os músicos freqüentemente reforçam o acento da pressão da coluna de ar com um suave ataque de língua. Esta abordagem funciona melhor na interpretação do Exemplo 6:
![]()
As semínimas com grande exposição no tempo fraco geram sincopas e devem ser acentuadas como no Exemplo 7
![]()
Colcheias com ligadura sobre a barra de compasso e ligadas às notas com valor maior do que colcheia, são normalmente tocadas com acentos longos.
Exemplo 8
![]()
Notas ligadas dentro do compasso, ou sobre a barra do compasso são acentuadas e tocadas com valor integral, a não ser que outra indicação exista.
Exemplo 9

Colcheias ligadas sobre a barra de compasso a outra colcheia poderão ser articuladas de duas maneiras, dependendo do estilo e das frases precedentes e subseqüentes.
Exemplo 10
![]()
Uma figura rítmica muito comum que aparece sempre no tempo primeiro ou terceiro é no estilo de swing. Ela deverá ser articulada dos seguintes modos.
Exemplo 11
![]()
Uma articulação apropriada para a segunda colcheia é dependente do que virá após esta mesma figura. No estilo rock é normalmente articulado do seguinte modo.
Exemplo 12
![]()
Uma série de semínimas que aparecem consecutivamente no tempo fraco são freqüentemente tocadas curtas (exemplo 12a), todavia, elas podem também ser interpretadas com acentos longos e "quedas curtas" (short falls), (veja tabela geral de articulação no final dessa matéria) criando pequenos intervalos entre cada semínima (ex. 12b). Veja o áudio em mp3 no site na web.
Exemplo 13
![]()
A seguinte figura poderá ser corretamente articulada em várias maneiras diferentes; a escolha apropriada irá depender do estilo.
Exemplo 14
![]()
Semínimas no estilo swing são freqüentemente tocadas curtas com o acento marcato. Regentes, atenção aos músicos com pouca experiência, pois eles tenderão a apressar os tempos fortes, particularmente nos andamentos lentos e moderados. Os alunos deverão ser instruídos para esperar por cada tempo. É uma grande idéia instruir o estudante a tocar com caráter "para trás" (lay back), mas com o cuidado de não atrasar ou arrastar o andamento: é muito importante manter o tempo.
Exemplo 15
![]()
Para se ter certeza de um limpo e preciso ataque no tempo fraco, com valor de colcheia, precedida por uma longa nota ligada, proceda do seguinte modo: interrompa a nota na última ligadura do tempo forte. A porção final da nota ligada deverá ser considerada como pausa. Veja o exemplo a seguir:
Exemplo 16
![]()
Shakes são freqüentemente seguidos por uma colcheia no tempo fraco. O ataque da colcheia pode ser mais preciso se parar o Shake no tempo forte ao invés do tempo fraco. Esta técnica é similar àquela descrita no exemplo acima, e não deverá ser sempre desejada, mas ela é, todavia, um meio de sucesso para limpar o problema em uma banda com pouca experiência.
Exemplo 17
![]()
Crescendo e decrescendo, quando são indicados, devem ser adicionados e seguir contorno natural das linhas melódicas. Se a linha sobe na tessitura, então um suave crescendo será benéfico e vice-versa. Estas nuances não devem ser muito evidenciadas e devem parecer naturais. Os crescendos geram uma pequena tensão e os decrescendos geram, ao contrário, um relaxamento da frase.
Exemplo 18
![]()
No sentido de gerar interesse e movimento em notas longas, que normalmente possuem um caráter estacionário, é aconselhável adicionar um suave crescendo.
Exemplos 19 e 20
![]()
Aguarde o complemento desta matéria na próxima edição.
Beto Barros dirige sua própria empresa de produções artísticas e culturais.